
Os levantes contra as ditaduras que antes dominavam o mundo árabe têm feito o mundo ocidental lançar seu olhar para aquele lado sob diversas perspectivas. Alguns analisam os possíveis efeitos econômicos das trocas de regime e transições de governo; o status das relações bi ou multi-laterais construídas até então. Mas talvez nenhuma dessas análises chame mais a atenção quanto o impacto desse movimento revolucionário nas populações envolvidas, direta ou indiretamente, com esses levantes.
Do ponto de vista diplomático, qual deve ser a posição adotada pelos países desenvolvidos vizinhos dessas áreas em crise? Até que ponto é interesse dos países desenvolvidos apoiarem esses países em crise? E quais as conseqüências dessa troca?
Sem a pretensão de querer responder a todas essas perguntas e com o objetivo de levantar o debate apenas sob uma perspectiva, trago a tradução de trechos de um artigo, originalmente publicado na revista Foreign Affairs por Behzad Yaghmaian. Na oportunidade o autor trata do temor da invasão de imigrantes originários da África por parte dos europeus. Salta aos olhos a forma como a Itália negociou com a Líbia, sob o regime de Qaddafi, para que esse policiasse o trânsito de africanos para aquele país em troca de investimentos econômico e suprimento bélico, por exemplo.
“Enquanto quase todo o mundo celebra as revoluções que varreram a Tunísia, Egito, e recentemente a Líbia, a Europa está assistindo com ansiedade, temendo um influxo de imigrantes africanos. Já nas ultimas semanas mais de cinco mil tunisianos cruzaram o Mar Mediterrâneo em barcos e chegaram à costa da Itália. Um número menor, porém significante, de egípcios fugiram para a Europa. E mais de cem mil líbios e trabalhadores migrantes do leste da Ásia deixaram a Líbia em direção ao Egito e à Tunísia. Mas esses africanos do norte não são a principal preocupação da Europa. Na verdade seu maior temor é um êxodo em massa de africanos subsaarianos através das fronteiras despoliciadas do norte da África.
Na última década, os países europeus começaram a suplementar o controle de suas próprias fronteiras com portões externos e entrando em acordo com ditadores do norte da África. Em 2003, em um acordo com a Espanha, autoridades marroquinas prometeram cooperar completamente com o controle da migração em troca de ajuda de $390 mi. Desde os anos de 1990, o então presidente da Tunísia Zine el-Abidine Ben Ali ajudou a diminuir o transito de migrantes por seu país em troca de cooperação econômica e preferência em transações comerciais.
A cooperação entre a Itália e, sua antiga colônia, a Líbia era particularmente intensa. Em 2004, num acordo bilateral, o líder líbio Muammar al-Qaddafi concordou em ajudar a prevenir que migrantes africanos subsaarianos utilizassem a Líbia como país de trânsito. Pressionada pela Itália, a União Européia suspendeu sanções econômicas e um embargo bélico contra a Líbia que já durava quase vinte anos. O fim do embargo permitiu que a Itália suprisse a Líbia com equipamentos de última geração necessários para desacelerar a migração ilegal.
A relação entre Itália e Líbia culminou em 2008 em um “pacto de amizade” no qual ambos se comprometeram em aumentar a cooperação na luta contra o terrorismo, crime organizado, tráfico de drogas, e imigração ilegal. Qaddafi concordou em impedir que os migrantes africanos saíssem da Líbia para a costa italiana, além de receber aqueles interceptados no mar Mediterrâneo. O preço por esse serviço foi $5 bilhões em investimento italiano na Líbia e seis barcos de patrulha para policiar as águas entre a África e Europa.”
Para ler ao artigo na íntegra (em inglês) acessar http://www.foreignaffairs.com/articles/67566/behzad-yaghmaian/out-of-africa
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