
A visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ao Brasil foi marcada por muita especulação, expectativa, alguns constrangimentos e tímidos ensaios de protesto reprimido, sem grandes problemas pela polícia local. No entanto a marca que ficou foi a do simbolismo que essa viagem representa tanto para o presidente americano quanto para a presidente Dilma Rousseff.
Dilma e Obama são representantes de dois grupos socialmente discriminados em ambos os países, o que dispensa maiores explicações do quão significativo é esse encontro do primeiro presidente negro dos Estados Unidos com a primeira presidenta do Brasil. Além disso, o encontro acontece no qüinquagésimo aniversário da Aliança para o Progresso, projeto lançado em 1961 pelo presidente John F. Kennedy com o objetivo de promover o desenvolvimento econômico da America Latina a partir de colaboração técnica e financeira.
O fato de ser a primeira vez que um presidente americano pisa em solo brasileiro antes de receber a visita do representado do Brasil em seu país aumenta ainda mais a esfera de expectativa que ronda a visita.
Em entrevista concedida ao cfr.org, Matias Spektor, professor assistente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, fala sobre um possível estreitamento das relações entre os dois países e no compromisso com seu sucesso mútuo.
Seguem alguns trechos da entrevista...
No sábado, Presidente Obama faz sua primeira viagem para a America Latina. Qual o significado dessa viagem?
No que se refere ao Brasil, essa viagem é vista como incrivelmente importante por acontecer depois de muitos anos de uma relação que já estava, até certo ponto, deteriorada decido ao choque de interesses em assuntos como as mudanças climáticas, comércio, o programa nuclear iraniano e o golpe em Honduras. Nem o Brasil, tampouco os EUA, encontrou uma atmosfera para lidar com o fato de que, no cenário mundial atual, o Brasil é uma potência ascendente com maior responsabilidade internacional. Os dois países precisam encontrar um novo discurso se quiserem que essa relação funcione sob essas novas condições; isso não aconteceu ainda. Essa visita pode ser o início de um tipo de diálogo que precisamos ver.
Quanto desse diálogo depende de Dilma Rousseff como a nova líder do Brasil? Isso de fato levará a uma potencial mudança de diálogo?
A chegada de Dilma ao poder marca uma mudança de estilo. Ela tem sinalizado que deseja restaurar a atmosfera positiva de aliança com os EUA. O outro elemento que considero relevante tem relação com política externa americana: a compreensão de que é importante para os EUA alcançar os países emergentes e tentar encontrar um terreno em comum com eles, mesmo se essa relação tenha uma breve história de contato sustentado.
Quais serão as prioridades de Obama no Brasil?
Ambos os lados assinarão uma série de acordos em questões diversas que variam desde espaço, ciência e tecnologia, até comércio e vistos.
O simbolismo do primeiro encontro entre o presidente americano negro e a presidenta que passou parte de sua vida na prisão sob uma ditadura militar é, também, incrivelmente poderoso. Se há uma coisa que une o Brasil e os EUA no século 21 é o fato de que se tratam de duas grandes democracia multiétnicas. Os dois presidentes representam isso de forma muito significante. Parte da agenda será para tornar esse gesto explícito.
E finalmente para enfatizar que para os EUA um Brasil crescente representa boas notícias. Pela mesma razão, para enfatizar que, para um Brasil emergente, ter um bom acesso a Washington é necessário.
Como a influência da China cresce na America Latina, de que forma essa relação com o Brasil afeta a relação EUA-Brasil?
A China tomou o lugar dos EUA como o parceiro comercial número um do Brasil nos últimos anos. Como o Brasil cresce, ele se encontrará em desacordo com algumas posições da China. Nesse mundo é crucial para o Brasil que ele tenha fácil acesso aos níveis mais elevados nos EUA. Pela mesma razão, como os EUA lidam com esse novo mundo no qual a China cresce dramaticamente, ter um parceiro como o Brasil será sempre mais importante para o entendimento e tratamento com a China. Então a posição da China está empurrando ambos, Brasil e EUA, em direção um do outro um pouco mais. Isso não significa que eles se unirão contra a China de qualquer modo. Eu não acho que o Brasil, tampouco os EUA, gostaria de se prestar a esse papel.
Quando Obama visitou a Índia em 2010, ele apoiou a candidatura desse país a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Qual a probabilidade de ele apoiar a candidatura do Brasil a um assento permanente em sua visita?
Quando o Ministro das Relações Exteriores do Brasil Antonio Patriota foi a Washington três meses atrás encontrar a Secretaria de Estado Hillary Clinton, ela usou uma linguagem bastante prática. Ela disse que os EUA desejam engajar-se com o Brasil em um diálogo construtivo sobre a reforma do Conselho de Segurança. Eu não acho que ninguém espere realmente que Washington declare algo a respeito do que Obama disse na Índia. Mas há uma expectativa em Brasília – e eu acho que seja real – de que os EUA mostrarão que desejam falar sobre o assunto e começar o processo pelo qual os dois países ditam a questão.
As relações EUA-Brasil, nesse ponto, são mais distantes do que elas são entre os EUA e a Índia. Mas talvez um dos resultados que virão com essa visita seja a decisão de ambos os lados, no mais elevado nível, de começar a falar no assunto. Isso seria muito bem vindo no Brasil.
O que você vê como a coisa mais importante a resultar dessa visita?
A coisa mais importante seria ter os dois presidentes dizendo, claramente em alto e bom tom, que eles apreciam não apenas os países um do outro, mas que o sucesso do país do outro é de seu interesse nacional. O argumento de que um Brasil poderoso, emergente e bem-sucedido é bom pros EUA não é óbvio em Washington. Muita gente não pensa assim. Mas, pela mesma razão, encontramos alguns em Brasília que pensam que um mundo com mais limites para o que os EUA podem fazer não é, necessariamente, uma coisa ruim para o Brasil. Eles precisam um do outro para lidar com os problemas intimidadores que exigem uma profunda cooperação no século 21: mudança climática, comércio, estabilidade financeira, segurança alimentar. Todos esses são questões sobre as quais não se pode chegar a um acordo sem ter Brasil e EUA na mesa. Eles precisam dizer isso.
Para a entrevista na íntegra acessar:http://www.cfr.org/brazil/toward-new-ties-brazil/p24424
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E parece que de fato a visita não ficará apenas nos discursos descontraídos e recheados de elogios. Entre um discurso e outro do Presidente Obama, seus representantes assinavam novos acordos e renovavam acordos já existentes como uma prova de que as relações entre os dois países estão tomando um rumo mais promissor.
Dentre os muitos acordos firmados destacam-se (além dos mais citados pela imprensa como o apoio a grandes eventos esportivos como a Copa de 2014 e o Jogos Olímpicos de 2016) a Parceria para o Desenvolvimento de Biocombustíveis de Aviação, a Cooperação nos Usos Pacíficos do Espaço Exterior, Protocolo de Intenções sobre a ampliação de atividades de Cooperação Técnica em Terceiros Países.
Uma das questões que causaram grande expectativa com a visita de Obama foi a emissão de vistos de entrada para os EUA. Ele chegou a comentar sobre o assuntos em um de seus discursos para empresários brasileiros e americanos. O tema, entretanto, ficou de fora dos acordos e protocolos celebrados pelos dois governos.
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Para lista de todos os acordos firmados acessar: http://www.itamaraty.gov.br/
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